Meses recentes. Textos abandonados. Culpei o trabalho por ter extirpado a minha criatividade, meu suspiro literário. Mas quem é a culpada por se interessar mais pelo ócio, em deitar no sofá e sentir a baba pinicar o percurso enquanto escorre da boca? Muito vi neste tempo. Muito vi, porém nada guardei. Ou talvez tenha enfiado no fundo da gaveta da memória para depois deixar emergir, calmamente, quando chegar a hora. Muito senti neste tempo. Muito senti, mas já esqueci. As palavras que guardo há anos não foram entoadas. Havia uma perseguição de mãos, mas sem chegar ao seu destino. Não houve momento certo, apenas uma série de interrupções. Muito olhei neste tempo. Muito olhei, mas não acreditei. Em nem imaginei que seria surpreendida por outros olhos, outras mãos, outros lábios e outros sussurros. Tomei um rumo que achei que nunca seria meu, me libertei de uma maneira que julguei não ser possível. Muito caminhei neste tempo. Caminhei e respirei o sal do mar, sentindo os pés criando raízes na areia e os dedos espiralando como o vento. Sorriso inevitável. Alma enaltecida. Mergulhei de cabeça no novo ano. Muito aproveitei, faltando muito para viver. - Postado por: Gabi Coutinho às 17h46 [ ] [ envie esta mensagem ] A porta se abriu sem fazer nenhum som. Ele sorria timidamente. Seu cabelo escassamente iluminado pela luz amarelada da lâmpada do corredor. Fiz menção para que entrasse e ele assim o fez, posicionando-se no meio da pequena sala. Após oferecer algum café e ouvir a resposta afirmativa, fui para a cozinha enquanto ele direcionava a atenção aos livros na estante. Kotler, Sant´Anna, Cobra. Nomes que talvez ele nunca tenha ouvido falar. Observei a sua expressão, notando que seu pensamento voava longe lendo aqueles nomes. Após um tempo, ele caminhou em direção aos outros livros que se amontoavam no balcão. Livros de vários tamanhos, alinhados vertical e horizontalmente, sem muita ordem devido à falta de espaço. Márquez, Rice, Coelho, Gutierrez. Ele apertou os olhos reconhecendo alguns nomes enquanto suspirava um ar zombeteiro. Caminho pela sala com as duas xícaras enquanto ele ainda olha com ar desafiador “O que?”, pergunto instintivamente, com uma fúria de curiosidade em minha voz. “Eu nunca achei que fosse encontrar vampiros e bruxas na sua casa”, ele respondeu com um tom de ironia escorrendo em sua língua. Sorrio relaxadamente levantando uma sobrancelha. Ação que faço quando sou desafiada. “Não se esqueça da barata”, apontei para um livro de Kafka espremido entre o amor de Márquez e a luxúria de Gutierrez. Caminhei em direção ao sofá, ouvindo a sua risada. Ele sentou ao meu lado, relaxado, sem dar muita atenção ao duro e desconfortável sofá. “O que eu posso fazer? Sou uma geminiana”, falei mais alto do que o normal, expulsando o silêncio da sala. Ele me fitou com os mesmos olhos incrédulos das pessoas que acham que astrologia é nada mais que uma grande bobagem. Depois de um longo suspiro, iniciei a explicação da minha tese. “Sou uma geminiana, e geminianos tendem a ser inteligentes e animados. Tudo o que as outras pessoas conseguem enxergar é o expressivo bom humor e a tendência para se comunicar facilmente. Muita gente acredita que o geminiano tem duas facetas e uma delas é falsa e persuasiva. Uns até acreditam que esta mudança de personalidade é perceptível no olhar e na maneira de gesticular. Todas estas pessoas estão certas. Digo isso porque os geminianos são muito transparentes. Mas, muitos ainda se chocam com o que fazemos e como lidamos com o mundo porque mudamos nossos pensamentos em questão de centésimos e, quando questionados, podemos explicar exatamente os prós e os contras da mudança de opinião, persuadindo e influenciando. Mas existe o outro lado, incompreensível do geminiano. Pelo menos existe um lado que, muitas vezes, demoro para compreender. Geminiana que sou, preciso de um cano de escape, uma fuga para um mundo fora deste. E somos tão imaginativos que mergulhamos muito fundo em histórias fantásticas, apenas suspensos pela fina linha chamada realidade. Dificilmente ela se rompe porque nós necessitamos caminhar entre os dois mundos. Precisamos ser estas duas pessoas: a que vivencia o mundo como ele realmente é; sofrendo com todas as injustiças e decepções, e a que cria mentalmente situações inexistentes, fantasiosas e, muitas vezes, impossíveis. Para ser completo, precisamos dos dois lados. Precisamos ser dois para se tornar um.” Após escrutinizar sua reação, abri um largo sorriso. Ele olhava intensamente com um brilho que crescia a cada segundo. Seus lábios se abriram um pouco, ainda pensando no que falar e cortando o silêncio, sua voz ecoou pela sala “E quem você é agora?” Meu rosto se voltou para o teto como se a resposta fosse aparecer em um balão acima da minha cabeça. Depois de um breve momento, respondi “Eu agora sou a geminiana imaginativa, fantasiosa, e com ideias transbordando pelas minhas orelhas.” Suas bochechas coraram, as minhas seguiram para o mesmo tom avermelhado. As linhas do rosto mudaram, seus pensamentos cravaram em minhas mãos, os meus lados se uniram e a fantasia se tornou realidade. - Postado por: Gabi Coutinho às 10h30 [ ] [ envie esta mensagem ] Eu costumava criticar meu ex pelas suas viagens irracionais e alucinógenas. Eram pensamentos que nada combinavam com a realidade. Depois descobri que essas viagens eram uma forma de sonhar, daqueles que imaginamos quando crianças e falamos... “quando eu crescer, quero ser...”
Hoje cheguei à conclusão que a viagem também faz parte do meu cotidiano. Obviamente, mais coerente e menos fantasiosa do que a do meu ex. Mas, depois de tanto chocalharem a minha mente com explicações e terapias, modificando e melhorando, fazendo da minha psique uma grande salada, é previsível a lógica se atracar com o espírito e o coração observar a baixaria de longe.
Faz um bom tempo que ando pensando em sinais. Sabe aqueles que nós juramos que se trata de uma intervenção divina? Esse mesmo! Eu nunca acreditei no lado religioso dos sinais. Para mim é difícil acreditar que algum ser superior deixará um cartão com charadas: Resolva esta questão e ganhe uma resposta para a sua lista interminável de perguntas. Tudo faz parte da nossa algazarra mental! Os sinais são uma predisposição da nossa mente para captar uma importante solução para perguntas do ser humano. Solucionada a grande dúvida que influencia nosso humor, conseguimos resolver a questão e riscar o tópico das nossas vidas. Os sinais são uma atitude forçada da intuição, que por falta de atenção da nossa parte praticamente se materializa na nossa frente com um pedaço de papel e uma caneta e pergunta... “entendeu ou quer que eu desenhe?”.
Esse papo mais parece uma viagem de ácido, mas juro a você que neste momento não vejo fadas e duendes, muito menos um mundo mais colorido e feliz. A compreensão sobre os sinais me fez ter uma visão muito mais interessante do mundo, abrindo as portas da percepção sem esperar que os céus enviem mais que chuva, raios e trovões. Tudo depende do que se pode perceber prontamente e de prestar atenção às mudanças que ocorrem ao nosso redor.
O ser humano é cômodo e acostuma-se a não pensar fora do quadrado (ou da concha). Ele recebe crenças dos outros e as aceita porque é muito mais prático e fácil de entender. Por isso eu digo: Use mais a sua cachola e se abra mais para os sinais do mundo e da mente. Você se abre para tanta coisa, tenho certeza que mais uma abertura não fará diferença. - Postado por: Gabi Coutinho às 15h35 [ ] [ envie esta mensagem ] Quinta-feira, 18 horas e vinte minutos. Contando os segundos para chegar o sagrado momento de desligar o computador e ir para casa. Quando inicio a contagem regressiva na minha mente, o telefone toca e meu chefe pede para nós, minha colega de trabalho e eu, subirmos para uma reunião. Chegando à sala, ele já dispara: temos um pepino para resolver! Passei a mão na cabeça com força, um sinal que algo me incomodava.
Em cima da mesa, ele joga um pedaço de papel e começa a descascar o nosso “pepino”. Enquanto ele falava, todo o meu corpo entrava em choque, minhas mãos tremiam e tudo o que eu conseguia pensar era: eu não acredito que nisso. O que era isso? Um anúncio para o obituário do jornal, convidando para a missa de sétimo dia, e um santinho para ser entregue a todos os presentes no evento. Para apimentar o meu bom humor, ainda fui informada que poderia ter que ficar até mais tarde na quinta e na sexta, e talvez trabalhar no sábado, apenas para finalizar este material.
Desde ontem eu reflito sobre o assunto. Sobre o que fazemos para manter um emprego; de obituários a contos eróticos nos prostituímos. E isto prova que não há diferença nenhuma entre trabalho algum, pois em todos os níveis as pessoas acabam por ter que realizar algum sacrifício sem noção, sendo obrigadas a levar para o lado pessoal, emoções desconhecidas.
No caso do anúncio da missa, talvez isto possa significar o surgimento de um novo mercado, ou melhor, um novo e velho mercado, já que a morte não é nada nova. Mas, além das modernidades do setor funerário, quem sabe o anúncio espetacular das mortes não seja uma nova maneira de ganhar dinheiro? Uma maneira bem vendedora, bem Casas Bahia! - Postado por: Gabi Coutinho às 16h40 [ ] [ envie esta mensagem ] Nestes tempos gelados, muitos correm para debaixo das cobertas. Alguns levam os seus amores, outros os desejos, os últimos levam barras de chocolate. Quem procura uma grande paixão para acalentar e aquecer o coração não sabe onde se mete. Digo agora que de quente o coração nada tem. É um bloco de gelo no meio do oceano. Uma massa branca que pouco se aquece com o sol que risca o céu lentamente. E na tentativa inútil do círculo amarelo, o bloco nada perde, continua estático, impassível, calado, frio. Muitos têm um inverno em seus corações durante todo o ano. Outros passam por fases de inverno, mas brilha o sol de verão na maior parte do tempo. O meu flutua no inverno, em águas geladas, procurando terras quentes para a temporada. Ou, quem sabe, para a vida inteira. - Postado por: Gabi Coutinho às 10h59 [ ] [ envie esta mensagem ] Não há nada mais solitário do que ir ao museu sem companhia. Num momento de rebeldia dominical (algo que não tinha há muito tempo), me joguei no Boqueirão/Centro Cívico e rumei ao MON, também conhecido como Museu Oscar Niemeyer. A música nos ouvidos silenciava os ruídos da rua, a reclamação dos bêbados, as divagações das putas, as conversas dos evangélicos, as reclamações do cobrador. No museu, a cantoria retirava os comentários idiotas, a gritaria das crianças, os passos dos sapatos. Mas com a música não havia conversa, não havia o diálogo. Apenas as palavras sufocadas da minha mente, algo que nem meus ouvidos conseguiam detectar. Na sala cor de nuvem, estavam Renoir, Degas, Monet, flutuando na parede etérea. Falavam comigo sem palavra alguma, numa língua desconhecida por mim. Mas, traziam lembranças e essas lembranças me faziam querer conversar com alguém, puxar a menina que enrolava os cabelos da mesma forma que eu enrolava, dar um oi para uma outra que caminhava solitária como eu. Não fiz nada disso, continuei caminhando e sorrindo para o meu próprio sorriso. Continuei vasculhando mais alguma mensagem nas pinceladas, nas fotografias obtusas e nas esculturas insólitas. E voltei para casa mais vazia do que quando saí. Mas com o gosto de tinta na ponta da língua desejando salpicar em todos. Não há nada mais solitário do que ir ao museu sem companhia. - Postado por: Gabi Coutinho às 22h25 [ ] [ envie esta mensagem ] E vem à mesa o balde cintilante e verde de Heineken. E, no seu interior, um barril em miniatura da mesma marca. Um amontoado metálico em meio a dezenas de pedras de gelo. Neste momento, copos se posicionavam embaixo do canudo, aguardando o sumo alcoólico e inebriante. Recipientes cheios, brindes realizados, cerveja para dentro, congelando qualquer fatia de órgão responsável por encaminhar o líquido ao estômago, e deste às outras partes do corpo. Várias vezes o canudo jogou em nossos copos o rico líquido, e quanto mais o ritual de encher copos era realizado, mais certeza tínhamos daquilo não ter fim. Lembro ter olhado debaixo da mesa para me certificar se não havia ligação do barril com a terra, tendo a infeliz certeza que aquela fonte haveria de secar. E isto aconteceu exatamente cinco litros depois, mas não antes do momento fatídico da noite. Duas horas depois de inaugurado o presente e desvirginado o hímen verde, tivemos que nos retirar daquele lugar quentinho em que nos encontramos para encontrar o ar engraçado da noite. Mas, antes que a garçonete nos desse o último aviso, e quem sabe o dedo, um dos meus amigos a puxa e pergunta: moça será que eu posso levar este balde? A garçonete vira para ele, com ar de reprovação e balança a cabeça negativamente. Mas, isso não foi suficiente para aplacar a vontade de levar o balde. O público começa a se retirar do ambiente, quase expulsos, para dar lugar a segunda sessão do espetáculo finalizado. Aproveito a leva e vou ao banheiro. Ao retornar, só vejo minha querida amiga sentada à mesa, me esperando. Pergunto pelo seu marido e ela: já saiu. E questiono novamente: e o balde? Saiu também. Retiramos-nos, e no final da rua estava ele, segurando o balde com todas as forças do seu ser, em passos firmes, indo o mais rápido que podia em direção ao carro. Quando chegamos ao automóvel, um vigia percebe o fuzuê e alerta pelo rádio o furto do objeto proibido, mas já era tarde demais. Saímos rapidamente com ele cantando vitória, a esposa com a mão no rosto e balançando a cabeça com a culpa da cumplicidade e eu, no banco de trás, atenta a qualquer movimento brusco e escondendo o prêmio ao lado. - Postado por: Gabi Coutinho às 10h09 [ ] [ envie esta mensagem ] Eu nunca tive medo da velhice. Sempre comemorei os meus aniversários com uma felicidade exagerada. Nunca passei por nenhum temor por estar ficando mais velha, por estar próxima à idade em que começam as dores no corpo, os cansaços; quando todas as ações ficam pela metade porque o corpo já não é mais o mesmo. Até então eu nunca tive medo da velhice. Até então eu curtia de maneira curiosa cada ano marcado na minha pele. Foi quando eu tive medo! Durante o término e início do ano, tive que fazer visitas constantes a uma tia-avó, que antes morava no Recife e que agora reside em Itabaiana, no interior de Sergipe. As histórias que eu poderia contar dela não vem agora ao caso, mas aqueles momentos de desassossego e solidão me levaram a repensar as questões de uma vida inteira. Quem pensa que as atitudes que são tomadas hoje não influenciam num certo futuro está enganado. E não digo no corpo, mas na mente e na alma. Sempre achei que deixar um idoso num asilo era tido como descaso e egoísmo. Creio que em alguns casos estas palavras se adequam, mas não são apenas nos filhos, netos, sobrinhos, etc. os vilões desta triste história, mas a própria sociedade que não respeita aqueles que os criou. Mas, também a sociedade, neste texto, não vem ao caso. Então, o que vem ao caso, vocês perguntam. São as ações que tomamos hoje em dia, enquanto estamos fortes e sadios. Enquanto punho firme para atingir os nossos objetivos. Enquanto temos força suficiente para não sermos enfeitiçados por uma vida de carnaval. Minha tia viveu a mocidade nas festas e nos bailes, dispensou o noivo porque cansou das algemas que prendiam o seu desejo de diversão. Hoje não tem filhos, não tem um marido e sobrevive com um salário ridículo proveniente da aposentadoria. Um sobrinho se aproveitou do pouco dinheiro que tinha, um outro bateu nela, foi rotulada e xingada. Todas as conseqüências de hoje são frutos do ontem. E agora só resta esperar que a morte tenha um pouco de dó, que a toque e a leve. E estas não são palavras e desejos meus, são os dela. São palavras que ouvi em todos os dias que pisava os meus pés no asilo. São palavras que ecoam todos os dias pelas paredes do seu quarto. São palavras que ecoam por toda a cidade e por toda a serra*.
*Serra de Itabaiana. - Postado por: Gabi Coutinho às 11h14 [ ] [ envie esta mensagem ] Acabaram-se as férias que não são minhas. Como diria o meu avô: a mamata se acabou!
Já é dois mil e nove há vários dias. O primeiro mês já despenca no abismo do seu término para poder entrar em outro. Para poder mergulhar no mês do carnaval. Mas nisso também nem penso muito. Continuo quebrando a minha cabeça com o mesmo tema, aquela mesma palavra que me amola diariamente. A mesma gota que afunda na testa como a tortura dolorosa. A mesma ladainha que sangra os meus neurônios. Mas não carece aborrecê-los com isso.
Basta dizer que as férias foram de uma animação intensa e insana. Os dias passavam borbulhantes por causa do calor infernal e da dor de cabeça colega. Nesta virada de ano, realizei algo inédito e senti o cheiro de 2009 na cidade onde morei durante grande parte da minha vida. Experimentei o álcool de abraços e beijos diferentes. Fiz coisas que os reveillons anteriores nunca viram. Se o novo ano se basear no nível de alegria dos primeiros milésimos depois da meia noite, então que carimbem logo um grande sorriso no meu rosto ou sofrerei com muitas câimbras no maxilar.
Creio que é necessário dizer que devo ter amadurecido durante todos estes dias. As causas desta conclusão são sabidas por mim, mas não existe a necessidade de jogá-las na tela do computador. O importante é saber que eu amadureci. A minha cabeça continua com seus pensamentos malucos vinte e quatro horas por dia. Ainda martela as neuras diárias. Ainda cria situações absurdas (ou não) e deprimentes. Mas, paciência! Não existe remédio para isso muito menos algum transplante.
A minha personagem dois mil e nove começou alegre e embriagada com a vida. Com o retorno ficou tímida, triste e negativa. Com o coração ela ficou perturbada. Hoje está animada, positiva e amadurecida. Já sabe o que deve ser feito. Sofre todos os dias com as decisões que talvez precise tomar e pede aos céus para que elas sejam fáceis e indolores. Mas, desde quando as decisões são fáceis e indolores? - Postado por: Gabi Coutinho às 16h46 [ ] [ envie esta mensagem ] Dez dias fizeram ontem desde que me internei dentro de casa após fazer uma cirurgia. E neste décimo dia eu recebi o cartão verde da médica. Aquele cartão onde diz que você pode, de hoje em diante, se esbaldar com moderação. Escrevo hoje não por ter um significado na numerologia ou por eu ter marcado na agenda para rabiscar no blog. Escrevo hoje porque começo a não sentir mais o peso da cabeça e do corpo ao passar alguns minutos sentada. Agora recebo o alerta de que estou me curando. Dez dias usando apenas pijamas e camisolas, casacos e meias. Dez dias me alimentando de comidas prontas e sorvete. Não posso dizer que passei todos os dias solitária, mas a maioria deles foi falando com a televisão e com as paredes, ou discutindo com o liquidificador, ou xingando o chão por ele não se limpar só. Mas, nestes dias conversando com o inanimado, pude dialogar comigo sobre diversos temas, uns aflitos outros nem tanto. Tive idéias mirabolantes sobre o meu portfólio, que mais parece uma gestação de elefante. Formulei teses sobre o tempo e suas influências na nossa sanidade mental. Pude conhecer, de forma sensitiva, a anatomia das fossas nasais, a dança do ar na passagem pelos cornetos e o relacionamento doentio entre nariz, ouvido e olhos. Os dias já se arrastaram. E hoje tudo o que eles mostram são os joelhos feridos, as mãos calejadas e os cotovelos arranhados. De uma simples intervenção cirúrgica nasceram pensamentos, desejos e o choro pedindo pela mãe. Foi a partir disso que eu pude saber realmente o que significa morar só. Curitiba, 18 de novembro de 2008. - Postado por: Gabi Coutinho às 11h08 [ ] [ envie esta mensagem ] Blusa, casaco, bota de salto, cabelo desgrenhado, óculos escuros para esconder a maquiagem borrada, a boca exalando cheiro de álcool e pasta de dente. No rosto, a mensagem estampada: a noite foi movimentada! O porteiro avisa a sua presença com um sonoro bom dia e eu noto em seus olhos a reprovação. Aliás, a mesma reprovação que eu veria nos olhos dos meus pais. Um dia, quando eu morava na casa dos meus pais eu dormi, acidentalmente na casa de uma colega. Meus amigos tentaram, sem sucesso, me acordar. Eu só consegui despertar às oito da manhã com o meu celular gritando. E eu só pulei do sofá porque no visor mostrava a palavra Casa. Se um dia eu for diagnosticada com Síndrome do Pânico, possivelmente a doença terá começado nesta singela manhã. Ao entrar na cozinha, já em casa, e vê-los tomando café, um calafrio percorreu a minha espinha, acompanhado de uma sentença de morte. Achei que naquele momento seria amarrada ao pé da cama, com direito a três refeições ao dia apenas. Sem televisão, sem internet, sem contato nenhum com a civilização. Mas, aconteceu o pior. Minha mãe cravejou seus olhos azuis nos meus e acompanhou os meus passos até me perder de vista. Este ato, para mim, é pior do que tortura ou surra. Mais parece que aquele olhar trucida a minha alma. Lembrei deste fato hoje de manhã, enquanto aguardava o elevador chegar ao meu andar. Recordei os vários momentos em que meu pai constantemente brigava comigo porque eu costumava chegar de madrugada - Postado por: Gabi Coutinho às 18h35 [ ] [ envie esta mensagem ] Há muito estive pensando em escrever sobre a arte de mudar, não só mudar o que somos, mas também mudar os outros. Não que isso venha a se tornar um hobby sombrio, pegajoso e maldoso, mas muitas vezes se torna necessário. Tentamos mudar as nossas vidas, seguir um caminho que seja viável sem precisar chorar as pitangas. Mas, o mais difícil de mudar são os relacionamentos, a pessoa do sexo oposto (ou do mesmo sexo, a depender da sua orientação sexual), a cara metade, a outra banda da laranja. O fato é que as pessoas mudam de acordo com as facilidades das suas vidas, não pela necessidade dos outros. E nisto continuo falando dos relacionamentos amorosos. Um lado tenta, com todas as forças, ser compreensivo, se enveredando por trilhas que não pertencem a ele e acaba perdendo o rumo, se perdendo num caso unilateral. Se você já tentou mudar alguém, já sabe como é sofrido. Eu sempre tenho o costume de relacionar os fatos com ações básicas do cotidiano. E a velha frase “se está bom pra mim, não tem porque mudar” pode ser usada em todas as situações possíveis. Por exemplo, para que você vai mudar de banco se já está feliz com o seu? A não ser que o outro ofereça taxas mais baixas ou serviços apetitosos. O mesmo serve para relacionamentos, mesmo que a outra banda esteja sacrificando a calcinha, ou a cueca, para manter um clima favorável. E mesmo que você diga: estou infeliz, não adianta, porque a outra parte está muito tranqüila, sentada numa cadeirinha confortável, reinando em seu porto seguro. E nós, pobres e reles mortais, choramos e esperneamos, reclamamos para os nossos amigos, mergulhamos nos líquidos alcoólicos para tentar achar uma centelha de calma no fundo do copo. O tempo, que não é besta e não para nunca, acaba por um dia avisar os meses ou os anos. E o próprio calendário muitas vezes te diz o quanto você perdeu na luta de moldar um pedaço de barro já estorricado. Assim, ou você desiste da batalha e parte para outra, ou continua usando a sua mesma armadura gasta, olhando o ambiente com os mesmos olhos cansados, segurando a espada com as mesmas mãos calejadas. Pois é, é complicada esta estrada. Só sabe quem já passou por ela. Por isso, deixo aqui, de forma sonsa e sarcástica, a minha boa sorte! - Postado por: Gabi Coutinho às 11h18 [ ] [ envie esta mensagem ] Saiu de casa com pouca coragem. Acordara com fome e viu que não havia pão. Teve vontade de fumar, mas não havia cigarros. Na rua, estava descabelada e com frio. No rosto, as marcas da noite mal dormida. Foram muitos os pesadelos que a despertara na madrugada, em um deles os trovões gritavam forte em seus ouvidos. Chegou ao supermercado e pediu três pães. A voz quase não saia das cordas vocais. Talvez quisessem permanecer escondidas no quentinho da garganta. Foi no caixa, pediu os seus cigarros e foi embora. Enquanto caminhava na calçada pensou como aquela cena era cômica. Até rabiscou um leve sorriso. Lembrou-se de uma das suas tias, todas as manhãs. Saía descabelada, com o corpo dentro de um vestido estampado, mas que de tão gasto era difícil imaginar que um dia cores reinaram naquele tecido. Comprava pão e cigarros na padaria da esquina, e já chegava a casa exalando nicotina. De longe já se via a fumaceira, a chaminé ambulante. Vinha com a sacola em um dos braços e a mão apoiada na barriga redonda; conseqüência de filhos bem nascidos e bem crescidos. Do portão de casa já se fazia ouvir, já acordava os que dormiam e fazia questão de tilinta as panelas. O café da manhã simples fazia a festa da criançada. O habitual e velho pão com manteiga e o café com leite. Na época em que a matriarca da família ali morava, muitas manhãs tinham cheiro de pão com manteiga na chapa, lambuzando os dedos e as bocas até dos mais velhos. As lembranças foram interrompidas ao chegar à esquina, para atravessar a rua. E, enquanto evitava ser atropelada pensou como era delicioso ter esses pensamentos e lembranças em passeios tão simples. Também, como os eventos corriqueiros grudavam em sua mente, vindo à tona em uma outra cidade, bem longe daquela que mora a sua tia. Chegando ao apartamento, preparou o café com leite, abriu o pão, passou uma grossa camada de manteiga e foi à televisão assistir a algum programa matinal. E, nem passou pela sua cabeça que as lembranças se escondem, e muitas vezes tardam a aparecer. E que os eventos de ontem, que tanto marcam, acabam por ficar incrustados nas vidas da gente. - Postado por: Gabi Coutinho às 14h29 [ ] [ envie esta mensagem ]
Estava eu a pensar em fatos passados, doloridos e felizes. Tentando dar uma explicação às mudanças e medos de hoje. É bem verdade que o ontem nos molda, mas não diz o que somos hoje. Acabamos sendo um misto dos acontecimentos que nos cercam no dia a dia. Infelizmente o passado dita o nosso relacionamento com as pessoas, pois se sofremos, não queremos passar pela dor novamente e muitas vezes nos esquivamos dos sentimentos nossos e dos outros. Por isso considero uma pessoa afortunada aquela que tem a capacidade de se entregar por completo e de fazer surgir belos pensamentos. Eu também passei pelos sofrimentos, chorei, amaldiçoei, desejei que os ventos enxugassem as minhas lágrimas e que as águas carregassem para longe o que me amolava. Nós passamos por situações inexplicáveis que tiram a nossa razão. Excomungamos e aprisionamos os nossos corações achando que é a única maneira de sofrer menos. Mas, o tempo passa, o mar revolto volta a sua tranqüilidade habitual, as cicatrizes começam a se apagar. Mas, a fortuna muitas vezes pode se tornar desilusão, e a idade já demonstra a sapiência. As tentativas acabam se esgotando, a vontade vai desaparecendo e o querer cessa, se tornando apenas um leve sorriso sem borboletas para agitar o estômago. Sou a favor das tentativas que amolecem o coração e endurecem o aprendizado. Então amigos, aproveitem as borboletas, enquanto elas ainda atormentam as tripas enamoradas! E que estes lindos seres possam fazer isso pelo resto de suas vidas! - Postado por: Gabi Coutinho às 19h02 [ ] [ envie esta mensagem ] Num certo tempo, um barulho baixo despontava ao sul e uma mancha negra se aproximava devagar. Não havia nenhum outro movimento, nenhum rebuliço de árvores ou animais, apenas aquele som cada vez mais alto. A terra passou a tremer timidamente, o coração palpitava ansioso e da imaginação escorriam monstros de histórias de infância. No momento em que o mundo havia parado de girar, na expectativa em saber o que avançava, surgem tons de cinza e amarelo, num formato grotesco. E atrás dessa forma, um rabo é arrastado enquanto o monstro caminha, imitando os seus movimentos e a sua respiração. E, vinha, no meio da noite, o monstro de ferro, andando sobre rodas, arrastando seu rabo interminável de vagões. Cortava o ar calmamente, deslizava no breu com muito jeito, sem assustar os moradores da região. Nós, boquiabertos, fitávamos a cena, sem conseguir sair do lugar, olhando as cores que se alternavam. O monstro pára, nos observa, mas nada fala. Depois de alguns minutos volta a caminhar no vazio das estrelas sem um apito de chegada ou de partida, apenas no sonolento “vuco, vuco”. Ainda ficamos a esperar o final da centopéia, que parece não chegar nunca. E se cria a expectativa do “agora é a hora”. Num momento tudo se acaba, e o monstro continua sua jornada para sei lá onde. Continuamos a seguir, no silêncio mórbido, nos encharcando do ar frio e seco, procurando a madeira para nos aquecer e o lugar para dormir, longe de monstros mansos e centopéias de ferro. - Postado por: Gabi Coutinho às 13h08 [ ] [ envie esta mensagem ]
*Esse
layout é uma criação exclusiva de FadaKamikaze*
|
