"NÃO É A FORÇA, MAS A CONSTÂNCIA
DOS BONS SENTIMENTOS QUE CONDUZ
OS HOMENS A FELICIDADE!"
(Friedrich Nietzsche)







Quem:

Gabi Coutinho, redatora, formada em
Publicidade e Propaganda pela UNIT-SE,
especialista em Marketing Pela UFPR.




Histórico:

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Um pouco de verborragia emocional.


Nestes tempos gelados, muitos correm para debaixo das cobertas. Alguns levam os seus amores, outros os desejos, os últimos levam barras de chocolate. Quem procura uma grande paixão para acalentar e aquecer o coração não sabe onde se mete.

Digo agora que de quente o coração nada tem. É um bloco de gelo no meio do oceano. Uma massa branca que pouco se aquece com o sol que risca o céu lentamente. E na tentativa inútil do círculo amarelo, o bloco nada perde, continua estático, impassível, calado, frio.

Muitos têm um inverno em seus corações durante todo o ano. Outros passam por fases de inverno, mas brilha o sol de verão na maior parte do tempo.

O meu flutua no inverno, em águas geladas, procurando terras quentes para a temporada. Ou, quem sabe, para a vida inteira.



- Postado por: Gabi Coutinho às 10h59
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Renoir, Degas, Monet e Coleção de Viagens Espaciais


     Não há nada mais solitário do que ir ao museu sem companhia. Num momento de rebeldia dominical (algo que não tinha há muito tempo), me joguei no Boqueirão/Centro Cívico e rumei ao MON, também conhecido como Museu Oscar Niemeyer. A música nos ouvidos silenciava os ruídos da rua, a reclamação dos bêbados, as divagações das putas, as conversas dos evangélicos, as reclamações do cobrador. No museu, a cantoria retirava os comentários idiotas, a gritaria das crianças, os passos dos sapatos.

     Mas com a música não havia conversa, não havia o diálogo. Apenas as palavras sufocadas da minha mente, algo que nem meus ouvidos conseguiam detectar. Na sala cor de nuvem, estavam Renoir, Degas, Monet, flutuando na parede etérea. Falavam comigo sem palavra alguma, numa língua desconhecida por mim. Mas, traziam lembranças e essas lembranças me faziam querer conversar com alguém, puxar a menina que enrolava os cabelos da mesma forma que eu enrolava, dar um oi para uma outra que caminhava solitária como eu.

Não fiz nada disso, continuei caminhando e sorrindo para o meu próprio sorriso. Continuei vasculhando mais alguma mensagem nas pinceladas, nas fotografias obtusas e nas esculturas insólitas. E voltei para casa mais vazia do que quando saí. Mas com o gosto de tinta na ponta da língua desejando salpicar em todos.

     Não há nada mais solitário do que ir ao museu sem companhia.



- Postado por: Gabi Coutinho às 22h25
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O Ladrão de Balde


E vem à mesa o balde cintilante e verde de Heineken. E, no seu interior, um barril em miniatura da mesma marca. Um amontoado metálico em meio a dezenas de pedras de gelo. Neste momento, copos se posicionavam embaixo do canudo, aguardando o sumo alcoólico e inebriante. Recipientes cheios, brindes realizados, cerveja para dentro, congelando qualquer fatia de órgão responsável por encaminhar o líquido ao estômago, e deste às outras partes do corpo.

Várias vezes o canudo jogou em nossos copos o rico líquido, e quanto mais o ritual de encher copos era realizado, mais certeza tínhamos daquilo não ter fim. Lembro ter olhado debaixo da mesa para me certificar se não havia ligação do barril com a terra, tendo a infeliz certeza que aquela fonte haveria de secar. E isto aconteceu exatamente cinco litros depois, mas não antes do momento fatídico da noite.

Duas horas depois de inaugurado o presente e desvirginado o hímen verde, tivemos que nos retirar daquele lugar quentinho em que nos encontramos para encontrar o ar engraçado da noite. Mas, antes que a garçonete nos desse o último aviso, e quem sabe o dedo, um dos meus amigos a puxa e pergunta: moça será que eu posso levar este balde? A garçonete vira para ele, com ar de reprovação e balança a cabeça negativamente. Mas, isso não foi suficiente para aplacar a vontade de levar o balde. O público começa a se retirar do ambiente, quase expulsos, para dar lugar a segunda sessão do espetáculo finalizado. Aproveito a leva e vou ao banheiro. Ao retornar, só vejo minha querida amiga sentada à mesa, me esperando. Pergunto pelo seu marido e ela: já saiu. E questiono novamente: e o balde? Saiu também.

Retiramos-nos, e no final da rua estava ele, segurando o balde com todas as forças do seu ser, em passos firmes, indo o mais rápido que podia em direção ao carro. Quando chegamos ao automóvel, um vigia percebe o fuzuê e alerta pelo rádio o furto do objeto proibido, mas já era tarde demais. Saímos rapidamente com ele cantando vitória, a esposa com a mão no rosto e balançando a cabeça com a culpa da cumplicidade e eu, no banco de trás, atenta a qualquer movimento brusco e escondendo o prêmio ao lado.



- Postado por: Gabi Coutinho às 10h09
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Velhice


         Eu nunca tive medo da velhice. Sempre comemorei os meus aniversários com uma felicidade exagerada. Nunca passei por nenhum temor por estar ficando mais velha, por estar próxima à idade em que começam as dores no corpo, os cansaços; quando todas as ações ficam pela metade porque o corpo já não é mais o mesmo.

         Até então eu nunca tive medo da velhice. Até então eu curtia de maneira curiosa cada ano marcado na minha pele.

         Foi quando eu tive medo! Durante o término e início do ano, tive que fazer visitas constantes a uma tia-avó, que antes morava no Recife e que agora reside em Itabaiana, no interior de Sergipe. As histórias que eu poderia contar dela não vem agora ao caso, mas aqueles momentos de desassossego e solidão me levaram a repensar as questões de uma vida inteira. Quem pensa que as atitudes que são tomadas hoje não influenciam num certo futuro está enganado. E não digo no corpo, mas na mente e na alma.

         Sempre achei que deixar um idoso num asilo era tido como descaso e egoísmo. Creio que em alguns casos estas palavras se adequam, mas não são apenas nos filhos, netos, sobrinhos, etc. os vilões desta triste história, mas a própria sociedade que não respeita aqueles que os criou. Mas, também a sociedade, neste texto, não vem ao caso.

         Então, o que vem ao caso, vocês perguntam. São as ações que tomamos hoje em dia, enquanto estamos fortes e sadios. Enquanto punho firme para atingir os nossos objetivos. Enquanto temos força suficiente para não sermos enfeitiçados por uma vida de carnaval. Minha tia viveu a mocidade nas festas e nos bailes, dispensou o noivo porque cansou das algemas que prendiam o seu desejo de diversão. Hoje não tem filhos, não tem um marido e sobrevive com um salário ridículo proveniente da aposentadoria. Um sobrinho se aproveitou do pouco dinheiro que tinha, um outro bateu nela, foi rotulada e xingada.

         Todas as conseqüências de hoje são frutos do ontem. E agora só resta esperar que a morte tenha um pouco de dó, que a toque e a leve. E estas não são palavras e desejos meus, são os dela. São palavras que ouvi em todos os dias que pisava os meus pés no asilo. São palavras que ecoam todos os dias pelas paredes do seu quarto. São palavras que ecoam por toda a cidade e por toda a serra*.

 

*Serra de Itabaiana.



- Postado por: Gabi Coutinho às 11h14
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Adeus Férias.


         Acabaram-se as férias que não são minhas. Como diria o meu avô: a mamata se acabou!

 

         Já é dois mil e nove há vários dias. O primeiro mês já despenca no abismo do seu término para poder entrar em outro. Para poder mergulhar no mês do carnaval. Mas nisso também nem penso muito. Continuo quebrando a minha cabeça com o mesmo tema, aquela mesma palavra que me amola diariamente. A mesma gota que afunda na testa como a tortura dolorosa. A mesma ladainha que sangra os meus neurônios. Mas não carece aborrecê-los com isso.

 

         Basta dizer que as férias foram de uma animação intensa e insana. Os dias passavam borbulhantes por causa do calor infernal e da dor de cabeça colega. Nesta virada de ano, realizei algo inédito e senti o cheiro de 2009 na cidade onde morei durante grande parte da minha vida. Experimentei o álcool de abraços e beijos diferentes. Fiz coisas que os reveillons anteriores nunca viram. Se o novo ano se basear no nível de alegria dos primeiros milésimos depois da meia noite, então que carimbem logo um grande sorriso no meu rosto ou sofrerei com muitas câimbras no maxilar.

 

         Creio que é necessário dizer que devo ter amadurecido durante todos estes dias. As causas desta conclusão são sabidas por mim, mas não existe a necessidade de jogá-las na tela do computador. O importante é saber que eu amadureci. A minha cabeça continua com seus pensamentos malucos vinte e quatro horas por dia. Ainda martela as neuras diárias. Ainda cria situações absurdas (ou não) e deprimentes. Mas, paciência! Não existe remédio para isso muito menos algum transplante.

 

         A minha personagem dois mil e nove começou alegre e embriagada com a vida. Com o retorno ficou tímida, triste e negativa. Com o coração ela ficou perturbada. Hoje está animada, positiva e amadurecida. Já sabe o que deve ser feito. Sofre todos os dias com as decisões que talvez precise tomar e pede aos céus para que elas sejam fáceis e indolores. Mas, desde quando as decisões são fáceis e indolores?



- Postado por: Gabi Coutinho às 16h46
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Sobre o “cri, cri” de quem mora só.


         Dez dias fizeram ontem desde que me internei dentro de casa após fazer uma cirurgia. E neste décimo dia eu recebi o cartão verde da médica. Aquele cartão onde diz que você pode, de hoje em diante, se esbaldar com moderação. Escrevo hoje não por ter um significado na numerologia ou por eu ter marcado na agenda para rabiscar no blog. Escrevo hoje porque começo a não sentir mais o peso da cabeça e do corpo ao passar alguns minutos sentada. Agora recebo o alerta de que estou me curando.

         Dez dias usando apenas pijamas e camisolas, casacos e meias. Dez dias me alimentando de comidas prontas e sorvete. Não posso dizer que passei todos os dias solitária, mas a maioria deles foi falando com a televisão e com as paredes, ou discutindo com o liquidificador, ou xingando o chão por ele não se limpar só. Mas, nestes dias conversando com o inanimado, pude dialogar comigo sobre diversos temas, uns aflitos outros nem tanto. Tive idéias mirabolantes sobre o meu portfólio, que mais parece uma gestação de elefante. Formulei teses sobre o tempo e suas influências na nossa sanidade mental. Pude conhecer, de forma sensitiva, a anatomia das fossas nasais, a dança do ar na passagem pelos cornetos e o relacionamento doentio entre nariz, ouvido e olhos.

         Os dias já se arrastaram. E hoje tudo o que eles mostram são os joelhos feridos, as mãos calejadas e os cotovelos arranhados. De uma simples intervenção cirúrgica nasceram pensamentos, desejos e o choro pedindo pela mãe. Foi a partir disso que eu pude saber realmente o que significa morar só.

 

Curitiba, 18 de novembro de 2008.



- Postado por: Gabi Coutinho às 11h08
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Sobre a educação dos nossos pais.


Blusa, casaco, bota de salto, cabelo desgrenhado, óculos escuros para esconder a maquiagem borrada, a boca exalando cheiro de álcool e pasta de dente. No rosto, a mensagem estampada: a noite foi movimentada! O porteiro avisa a sua presença com um sonoro bom dia e eu noto em seus olhos a reprovação. Aliás, a mesma reprovação que eu veria nos olhos dos meus pais.

Um dia, quando eu morava na casa dos meus pais eu dormi, acidentalmente na casa de uma colega. Meus amigos tentaram, sem sucesso, me acordar. Eu só consegui despertar às oito da manhã com o meu celular gritando. E eu só pulei do sofá porque no visor mostrava a palavra Casa. Se um dia eu for diagnosticada com Síndrome do Pânico, possivelmente a doença terá começado nesta singela manhã. Ao entrar na cozinha, já em casa, e vê-los tomando café, um calafrio percorreu a minha espinha, acompanhado de uma sentença de morte. Achei que naquele momento seria amarrada ao pé da cama, com direito a três refeições ao dia apenas. Sem televisão, sem internet, sem contato nenhum com a civilização. Mas, aconteceu o pior. Minha mãe cravejou seus olhos azuis nos meus e acompanhou os meus passos até me perder de vista. Este ato, para mim, é pior do que tortura ou surra. Mais parece que aquele olhar trucida a minha alma.

Lembrei deste fato hoje de manhã, enquanto aguardava o elevador chegar ao meu andar. Recordei os vários momentos em que meu pai constantemente brigava comigo porque eu costumava chegar de madrugada em casa. E, ele sempre dizia que não é horário para uma moça chegar. Ele ainda afirmava que depois de certo horário, só restam as pessoas que não prestam. Praticamente putas e cafetões. Fico imaginando se ele soubesse o que faço hoje. Fico pensando o que ele falaria, se estivesse aqui, e eu chegasse em casa, às oito da manhã. Depois de comentários de reprovação, ele perguntaria: onde você estava? E eu responderei: na casa do meu namorado. E ele ficaria calado, tentando digerir tamanha ofensa.



- Postado por: Gabi Coutinho às 18h35
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A Arte de Mudar


         Há muito estive pensando em escrever sobre a arte de mudar, não só mudar o que somos, mas também mudar os outros. Não que isso venha a se tornar um hobby sombrio, pegajoso e maldoso, mas muitas vezes se torna necessário. Tentamos mudar as nossas vidas, seguir um caminho que seja viável sem precisar chorar as pitangas. Mas, o mais difícil de mudar são os relacionamentos, a pessoa do sexo oposto (ou do mesmo sexo, a depender da sua orientação sexual), a cara metade, a outra banda da laranja.


         O fato é que as pessoas mudam de acordo com as facilidades das suas vidas, não pela necessidade dos outros. E nisto continuo falando dos relacionamentos amorosos. Um lado tenta, com todas as forças, ser compreensivo, se enveredando por trilhas que não pertencem a ele e acaba perdendo o rumo, se perdendo num caso unilateral. Se você já tentou mudar alguém, já sabe como é sofrido.


         Eu sempre tenho o costume de relacionar os fatos com ações básicas do cotidiano. E a velha frase “se está bom pra mim, não tem porque mudar” pode ser usada em todas as situações possíveis. Por exemplo, para que você vai mudar de banco se já está feliz com o seu? A não ser que o outro ofereça taxas mais baixas ou serviços apetitosos. O mesmo serve para relacionamentos, mesmo que a outra banda esteja sacrificando a calcinha, ou a cueca, para manter um clima favorável. E mesmo que você diga: estou infeliz, não adianta, porque a outra parte está muito tranqüila, sentada numa cadeirinha confortável, reinando em seu porto seguro. E nós, pobres e reles mortais, choramos e esperneamos, reclamamos para os nossos amigos, mergulhamos nos líquidos alcoólicos para tentar achar uma centelha de calma no fundo do copo.


         O tempo, que não é besta e não para nunca, acaba por um dia avisar os meses ou os anos. E o próprio calendário muitas vezes te diz o quanto você perdeu na luta de moldar um pedaço de barro já estorricado. Assim, ou você desiste da batalha e parte para outra, ou continua usando a sua mesma armadura gasta, olhando o ambiente com os mesmos olhos cansados, segurando a espada com as mesmas mãos calejadas.


         Pois é, é complicada esta estrada. Só sabe quem já passou por ela. Por isso, deixo aqui, de forma sonsa e sarcástica, a minha boa sorte!



- Postado por: Gabi Coutinho às 11h18
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Pão e cigarros


Saiu de casa com pouca coragem. Acordara com fome e viu que não havia pão. Teve vontade de fumar, mas não havia cigarros. Na rua, estava descabelada e com frio. No rosto, as marcas da noite mal dormida. Foram muitos os pesadelos que a despertara na madrugada, em um deles os trovões gritavam forte em seus ouvidos.

 

Chegou ao supermercado e pediu três pães. A voz quase não saia das cordas vocais. Talvez quisessem permanecer escondidas no quentinho da garganta. Foi no caixa, pediu os seus cigarros e foi embora. Enquanto caminhava na calçada pensou como aquela cena era cômica. Até rabiscou um leve sorriso. Lembrou-se de uma das suas tias, todas as manhãs. Saía descabelada, com o corpo dentro de um vestido estampado, mas que de tão gasto era difícil imaginar que um dia cores reinaram naquele tecido. Comprava pão e cigarros na padaria da esquina, e já chegava a casa exalando nicotina. De longe já se via a fumaceira, a chaminé ambulante. Vinha com a sacola em um dos braços e a mão apoiada na barriga redonda; conseqüência de filhos bem nascidos e bem crescidos. Do portão de casa já se fazia ouvir, já acordava os que dormiam e fazia questão de tilinta as panelas. O café da manhã simples fazia a festa da criançada. O habitual e velho pão com manteiga e o café com leite. Na época em que a matriarca da família ali morava, muitas manhãs tinham cheiro de pão com manteiga na chapa, lambuzando os dedos e as bocas até dos mais velhos.

 

As lembranças foram interrompidas ao chegar à esquina, para atravessar a rua. E, enquanto evitava ser atropelada pensou como era delicioso ter esses pensamentos e lembranças em passeios tão simples. Também, como os eventos corriqueiros grudavam em sua mente, vindo à tona em uma outra cidade, bem longe daquela que mora a sua tia.

 

Chegando ao apartamento, preparou o café com leite, abriu o pão, passou uma grossa camada de manteiga e foi à televisão assistir a algum programa matinal. E, nem passou pela sua cabeça que as lembranças se escondem, e muitas vezes tardam a aparecer. E que os eventos de ontem, que tanto marcam, acabam por ficar incrustados nas vidas da gente.



- Postado por: Gabi Coutinho às 14h29
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Do passado e das suas implicações.


 

         Estava eu a pensar em fatos passados, doloridos e felizes. Tentando dar uma explicação às mudanças e medos de hoje. É bem verdade que o ontem nos molda, mas não diz o que somos hoje. Acabamos sendo um misto dos acontecimentos que nos cercam no dia a dia. Infelizmente o passado dita o nosso relacionamento com as pessoas, pois se sofremos, não queremos passar pela dor novamente e muitas vezes nos esquivamos dos sentimentos nossos e dos outros.

         Por isso considero uma pessoa afortunada aquela que tem a capacidade de se entregar por completo e de fazer surgir belos pensamentos. Eu também passei pelos sofrimentos, chorei, amaldiçoei, desejei que os ventos enxugassem as minhas lágrimas e que as águas carregassem para longe o que me amolava. Nós passamos por situações inexplicáveis que tiram a nossa razão. Excomungamos e aprisionamos os nossos corações achando que é a única maneira de sofrer menos. Mas, o tempo passa, o mar revolto volta a sua tranqüilidade habitual, as cicatrizes começam a se apagar.

         Mas, a fortuna muitas vezes pode se tornar desilusão, e a idade já demonstra a sapiência. As tentativas acabam se esgotando, a vontade vai desaparecendo e o querer cessa, se tornando apenas um leve sorriso sem borboletas para agitar o estômago. Sou a favor das tentativas que amolecem o coração e endurecem o aprendizado.

 

         Então amigos, aproveitem as borboletas, enquanto elas ainda atormentam as tripas enamoradas! E que estes lindos seres possam fazer isso pelo resto de suas vidas!



- Postado por: Gabi Coutinho às 19h02
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No chão de terra batida, os pés caminhavam desolados e a respiração se fazia difícil com a sequidão da vegetação. A noite se arrastava mansa, a lua cheia flutuava na madrugada, iluminando o caminho. As sombras cutucavam os medos da gente, pois não se sabia o que existia mais além da mata à esquerda. Esta se levantava como uma onda enegrecida a ponto de nos engolir sem deixar algum rastro. Uns sons de animais despertavam a atenção, mas novamente tudo se silenciava e mais uma vez a mente se quedava inerte, sonolenta. Os olhos se tornavam famintos por alguma figura que não era sombra, nem gente, nem bicho.

Num certo tempo, um barulho baixo despontava ao sul e uma mancha negra se aproximava devagar. Não havia nenhum outro movimento, nenhum rebuliço de árvores ou animais, apenas aquele som cada vez mais alto. A terra passou a tremer timidamente, o coração palpitava ansioso e da imaginação escorriam monstros de histórias de infância. No momento em que o mundo havia parado de girar, na expectativa em saber o que avançava, surgem tons de cinza e amarelo, num formato grotesco. E atrás dessa forma, um rabo é arrastado enquanto o monstro caminha, imitando os seus movimentos e a sua respiração.

E, vinha, no meio da noite, o monstro de ferro, andando sobre rodas, arrastando seu rabo interminável de vagões. Cortava o ar calmamente, deslizava no breu com muito jeito, sem assustar os moradores da região. Nós, boquiabertos, fitávamos a cena, sem conseguir sair do lugar, olhando as cores que se alternavam. O monstro pára, nos observa, mas nada fala. Depois de alguns minutos volta a caminhar no vazio das estrelas sem um apito de chegada ou de partida, apenas no sonolento “vuco, vuco”. Ainda ficamos a esperar o final da centopéia, que parece não chegar nunca. E se cria a expectativa do “agora é a hora”. Num momento tudo se acaba, e o monstro continua sua jornada para sei lá onde.

Continuamos a seguir, no silêncio mórbido, nos encharcando do ar frio e seco, procurando a madeira para nos aquecer e o lugar para dormir, longe de monstros mansos e centopéias de ferro.


- Postado por: Gabi Coutinho às 13h08
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A Piriguete.


Semana passada uma amiga comentou que o momento em que mais gosta de escrever, desabafando todos os conturbados causos da sua vida, é durante o período anterior ao Comando Vermelho. Disse a ela que concordava inteiramente com isso e, entre um copo de cerveja e outro, refleti sobre o seu comentário. Não é coincidência, afinal é um momento em que estamos a explodir a qualquer momento. Paciência se torna apenas uma palavra no dicionário e não uma ação que funcione em nossos corpos.

         Então, na mesma semana em que aconteceu a conversa, no dia em que se iniciava o inferno não apenas astral, mas também corporal, decidi, sem muita vontade, ir até o supermercado. Todos sabem o quanto é majestoso e magnífico ir ao supermercado, com os clientes parando no meio do corredor para analisar o que seja, com os funcionários mal humorados, com as filas quilométricas. Mas, o que fazer? Ou eu me aventurava na maravilhosa selva de gôndolas ou me satisfazia, no outro dia, almoçando pão dormido.

         Nunca fiz compras de maneira tão rápida, caminhando velozmente, jogando tudo na cesta de forma desordenada, não escutando os xingamentos depois de várias trombadas. A chegada ao caixa mais parecia a linha de chegada, mas como não era a primeira, em vez de prêmios, só ganhei desgosto. Três mulheres estavam na minha frente, mas observei atentamente a que estava mais próxima. Quando olhei pro rostinho da criatura, só consegui formular uma palavra na mente: piriguete!

         Na verdade a mulher piriguete, se vocês não sabem, não é mulher puta, muito menos mulher galinha. Existe uma pequena diferença. A mulher puta tem um lema na vida: Eat and Go*. A mulher galinha só pensa em uma coisa: Search and Destroy**. Já, a mulher piriguete faz tudo isso. Suas vestes são sempre muito parecidas, seus olhares são sempre maliciosos. Mas, a mulher piriguete é a favor de uma baixaria, de um barraco armado e de uma saia pra rodar a baiana. Sempre fala alto, gosta e chamar a atenção de todos porque acha que atirar para todos os lados é a solução. Seus mamilos são mais que chafarizes de leite, são armas altamente avançadas lançando projéteis invisíveis.

         E lá estava a piriguete desalmada, lançando as suas balas de futilidade e reclamação. E mesmo que eu quisesse meter a mão na massa branca da sua bochecha, tive que me conter e arranjar algum tipo de concentração: verificar a lista de compras, olhar a quantidade de calorias de um chocolate, ver a quase queda de uma garota, observar um cachorro tostando no sol. Opa, chegou a minha vez. E lá se foi a piriguete com seu rebolado de sambista, sacudindo a peruca (vulgo cabelo) loira e desfilando numa passarela de carrinhos e cestinhas ao som da máquina registradora.

 

 

*Eat and go = comer e ir embora.

**Search and destroy = procurar e destruir.

 

 



- Postado por: Gabi Coutinho às 16h28
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Foi subindo para o topo da colina, devagar, observando tudo a sua volta. Caminhava por uma trilha de pedras, fazendo um leve ziguezague. Com a cabeça erguida, sentia os diversos aromas de cada planta, cada flor. Enchia os olhos de um colorido suave e fechava-os por alguns instantes para tatear a brisa que a guiava.

         Tudo era silêncio. Nenhuma música, nenhuma outra voz, a não ser aquela que sussurrava em seu ouvido. Ah! Doces palavras da sua protetora bruxa, numa voz atemporal e que a conectava ainda mais com a natureza. As árvores dançavam enamoradas pelo som do mundo, os pássaros alçavam vôo para esticar as asas. E ela se concentrava cada vez mais, entrando num profundo transe e conversando com seu coração sobre o presente momento.

         Chegou ao topo. Colocou na grama o caderno e a caneta que trazia consigo. Olhou a vastidão que se punha a sua frente. Morros pintados de verde, salpicados com grandes pontos marrons. Sim, eram as rochas que brotavam da terra fértil e que apontavam aos céus, como se para mostrar uma beleza sem fim. Mais uma vez sentiu o vento tocar em sua pele, sacudir seus cabelos, dançar no ar. Ele trazia presentes de mundos distantes e culturas diferentes.

         Depois de muito ouvir, pediu licença ao vento, pois algo precisava ser feito. Não sabia quando voltaria novamente àquele lugar mágico e quis firmar a sua visita. Então, encheu os pulmões com todo o puro ar que conseguiu agüentar e gritou. Gritou até nada mais restar e até a sua voz falhar. Inspirou novamente o ar, e este curou qualquer dor na garganta e no peito. Gritou novamente, e se fez presente na terra e no céu, agitou as nuvens e acordou as pedras. Sentiu a energia explodir em suas mãos e em sua cabeça. Levantou os braços para sentir a força que aquele lugar poderia proporcionar.

         Sentou-se na grama úmida, sorriu e disse: “E que fique certo, eu estou aqui! Caminhei por estradas difíceis, e cheguei até aqui. Que minhas palavras fiquem cravadas nos ponteiros do tempo, pois ele há de se lembrar”.



- Postado por: Gabi Coutinho às 21h26
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Veio parar em suas mãos uma tese chamada: por que falamos eu te amo?. A capa negra, as letras douradas, o aroma das folhas novas e da tinta ainda fresca. Um assunto tão antigo em um material tão novo e moderno. Um texto sombrio, sem as cores shakesperianas, nem a sonoridade de versos ou o tilintar das canções apaixonadas por seres enamorados. Já passou tantas vezes por corações despedaçados e juras jogadas ao relento. O sentimento é medido num termômetro de brinquedo, encontrado num camelô da feirinha do lado.

         Esta mulher já escutou a frase tantas vezes que, talvez, tenha se acostumado. E já falou tantas vezes que perdeu o brilho. A tese que segurava era uma resposta as suas dúvidas. Então deixou de lado o livro, foi ao banheiro e se olhou no espelho. Ali estava, em seu reflexo, a pessoa que ela mais deveria amar. A mulher que deveria escutar todos os dias um sonoro ‘eu te amo’. Sorriu e olhou profundamente na outra que a fitava e disse uma frase, escutada tantas vezes em filmes Hollywoodianos: mais importante que o amor é o amor próprio. E, depois enfatizou: porque é a partir do amor próprio que se ama o outro.

         Voltou para a sala e pensou em cada pessoa que já havia escutado da sua boca o ‘eu te amo’. Algumas nem mereciam ser amadas em sua totalidade, mas amava algumas características, amava os sorrisos, os olhares, as palavras de afeto. Então concluiu: a gente não ama de forma inteira porque parte do que amamos em nós mesmos amamos em outras pessoas.

         Lembrou dos ‘eu te amos’ ditos em horas impróprias. Pra ela nunca foram impróprias porque quando sente, desabafa. Porque a verborragia faz parte do seu ser e mesmo que saiba que seus olhos exprimem esse sentimento, precisa gritar aos ventos. As nuvens devem saber disso, as estrelas precisam escutar. Sempre que exprime esse sentimento, sabe que cada partícula do seu corpo explode, suas mãos suam, seus olhos brilham e as pernas cambaleiam. Por isso praguejou por ter se arrependido algumas vezes de ter falado ‘eu te amo’.

         Sua face se encheu de uma rica alegria: ora, tantas pessoas deixam de amar pela primeira vez, com medo de se machucar. Tantas outras deixam de amar de novo, com medo de repetir a infelicidade anterior. Já conheceu pessoas que vestiam uma couraça para não serem atingidas por tal sentimento. Algumas até se seguravam, e criavam obstáculos para nunca se entregar.

         Ela estava entregue, sem nenhuma vergonha, sem nenhum medo pois sabia que amava um homem. E, mais importante que amá-lo, ela se amava.



- Postado por: Gabi Coutinho às 18h02
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TPM


Conciliábulo. Arranjo, cabala, cachinha, cambalacho, colusão, complô, conchavo, conivência, conjuração, conluio, conspiração, conspirata, consulto, conventículo, corrilho, malhoada, maquinação, panelinha, ró-ró, trama.

 

Dessa maneira, quem vos fala agora não é Gabriella, e sim senhorita Molotov.

Quando acordei hoje e notei que estava mais irritada que o convencional, verifiquei na agenda e notei que estou no inferno astral do mês, ou seja, a TPM. O simples fato de deixar cair, sem querer, um papel no chão, já é motivo de esmurrar a parede. Então, pensei, por que não dividir esse suplício mensal com vocês, meus queridos amigos?

Creio que só as mulheres conseguem compreender como é passar por essa fase constantemente. Eu poderia tecer uma lista de reclamações, pois hoje, mais que qualquer outro dia, estou com a língua afiada para isso, mas não o farei. No entanto, milhares de vezes eu tive que escutar as reclamações dos homens sobre a transformação das mulheres nessa época. De ser humano a lobisomem, de doutor Jekyll para senhor Hyde, da calma mãe de santo a Iansã furiosa. Nós nos tornamos pessoas diferentes e que explodem facilmente. Insuportáveis, chatas e mortíferas. Os sentimentos se misturam como tequila no sangue. A raiva e a tristeza se tornam o açúcar e o limão da caipirinha.

Pensei e pensei como poderia fazer uma comparação. Ou melhor, como criar uma situação de TPM para os homens. Só me veio uma palavra na cabeça: futebol. Então, pense você, homem, que acompanhou o ano inteiro o desenvolvimento do seu time, o campenato estadual, o brasileiro. Não importa em que divisão esteja, você só quer ver a vitória, os seus companheiros desfilando com suas camisas pelas ruas, comemorando com fogos de artifício e cerveja. Em cada jogo o martírio é diferente. As injustiças dos juízes, os momentos raivosos dos jogadores, o goleiro frango, os chutes errados, os pés lambuzados de vaselina, a cabeçada mal feita, a rede do seu time balançando.

Durante os 90 minutos, cada momento é precioso, importante, decisivo. As mãos suam em bicas, os olhos vidrados doendo pelos flashes televisivos, os ouvidos sangram com a voz do Galvão Bueno. O mundo estremece em seu eixo. Se a mulher vir cobrar algo, é motivo de briga. Se o filho pedir para brincar, ignorar é inevitável. O sangue borbulha, as orações parecem sem sentido. E, o seu time perde, e você fez tudo o que pôde, sentado no sofá da sala. Durante o tempo do jogo, seu relacionamento com a família já não é o mesmo, o contrato de amizade com o amigo do time contrário (ou com qualquer outro) já foi desfeito. Tudo isso aconteceu em curto período de tempo.

No minuto 91 você, aos poucos, percebe o clima. Então inicia todo o processo de reverter a situação. Pede desculpas por ter xingado, espatifado o vaso, jogado o controle da televisão na parede. Consegue a paz da casa, não a sua. Passa a semana como se nada tivesse acontecido. Até que chega o outro domingo, outra tarde, outro jogo.

Nossos domingos sempre acontecem uma vez por mês. E nossos times sempre perdem. Mas, os 90 minutos se transformam em dias, numa tortura insólita, que só termina quando os jogadores, com seu fardamento encarnado, saem de campo.



- Postado por: Gabi Coutinho às 17h23
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