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Acordou com o sol jogando suas vestes nas paredes. Tentou lembrar quem era e o que fazia no lugar tão estranho em que se encontrava. Sentiu ainda a alma planar fora do seu corpo; sentiu a pele adormecida e os músculos retesados. A noite havia sido um misto de insanidades e viagens etéreas. Fora inundada por sons que não existiam, por olhos que não a fitavam, por mãos que há muito haviam deixado de tocá-la. Um enjôo inundou suas entranhas e quis vomitar as estrelas que salpicavam o céu horas atrás. Mas, seu estômago estava lento, assim como ela. Tantas vezes havia despertado na mesma situação, necessitando de um sorriso que a amava e de um semblante que a desejava. Tantas noites ela passou em claro buscando braços que a carregassem e lábios que pudessem arrancá-la desse estado catatônico e solitário. Já chorou e já pediu aos deuses por uma proteção que não estava na oração, mas em mãos macias e braços fortes. Muitas vezes já se embelezou e se enfeitou. Tantas vezes já encenou a palhaça num circo, com pessoas estranhas que nada tinham a ver com seu modo de pensar. Foram tantas as vezes que teve que ser malévola, pelo simples fato de não ter paciência com homens que só queriam inebriá-la com o manto da noite. Sim! Havia perdido as esperanças. Achou que a busca não passava de contos da carochinha. Pensou em todos os momentos que chegara em casa, sentara na ponta da cama, de frente pra janela, tocara o vidro que chorava o orvalho, roçara o rosto na superfície gelada. Sonhava com alguém destroçando sua porta, entrando com toda a fúria, só para abraçá-la e deixá-la protegida. Tal ação com o propósito de arrancá-la da solidão, do medo e das trevas. Todas as vezes havia deitado sozinha, apenas escutando a doce melodia dos pássaros e o sussurro do sol nascente. Expulsou as lembranças e notou que alguém a carregava. Alguém falava em tom singelo, dizia que iriam pra casa, que iriam dormir. E, ao chegarem no quarto, enquanto ela se despia, a manhã se espreguiçava. Desabou na cama ainda drogada pela noite turbulenta, mas não teve a necessidade de chorar na janela, pois alguém a cobria e abraçava. E dizia o quanto a adorava. E que estaria ali pra todo o sempre. E enquanto ele a enchia de beijos, o sono ia se aproximando. O melhor sono que ela poderia ter, pois saberia que ele estaria presente. - Postado por: Gabi Coutinho às 20h09 [ ] [ envie esta mensagem ]
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