Saiu de casa com pouca coragem. Acordara com fome e viu que não havia pão. Teve vontade de fumar, mas não havia cigarros. Na rua, estava descabelada e com frio. No rosto, as marcas da noite mal dormida. Foram muitos os pesadelos que a despertara na madrugada, em um deles os trovões gritavam forte em seus ouvidos. Chegou ao supermercado e pediu três pães. A voz quase não saia das cordas vocais. Talvez quisessem permanecer escondidas no quentinho da garganta. Foi no caixa, pediu os seus cigarros e foi embora. Enquanto caminhava na calçada pensou como aquela cena era cômica. Até rabiscou um leve sorriso. Lembrou-se de uma das suas tias, todas as manhãs. Saía descabelada, com o corpo dentro de um vestido estampado, mas que de tão gasto era difícil imaginar que um dia cores reinaram naquele tecido. Comprava pão e cigarros na padaria da esquina, e já chegava a casa exalando nicotina. De longe já se via a fumaceira, a chaminé ambulante. Vinha com a sacola em um dos braços e a mão apoiada na barriga redonda; conseqüência de filhos bem nascidos e bem crescidos. Do portão de casa já se fazia ouvir, já acordava os que dormiam e fazia questão de tilinta as panelas. O café da manhã simples fazia a festa da criançada. O habitual e velho pão com manteiga e o café com leite. Na época em que a matriarca da família ali morava, muitas manhãs tinham cheiro de pão com manteiga na chapa, lambuzando os dedos e as bocas até dos mais velhos. As lembranças foram interrompidas ao chegar à esquina, para atravessar a rua. E, enquanto evitava ser atropelada pensou como era delicioso ter esses pensamentos e lembranças em passeios tão simples. Também, como os eventos corriqueiros grudavam em sua mente, vindo à tona em uma outra cidade, bem longe daquela que mora a sua tia. Chegando ao apartamento, preparou o café com leite, abriu o pão, passou uma grossa camada de manteiga e foi à televisão assistir a algum programa matinal. E, nem passou pela sua cabeça que as lembranças se escondem, e muitas vezes tardam a aparecer. E que os eventos de ontem, que tanto marcam, acabam por ficar incrustados nas vidas da gente. - Postado por: Gabi Coutinho às 14h29 [ ] [ envie esta mensagem ]
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